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Sobre a História: A Loteria é um Realistic Fiction de united-states ambientado no Contemporary. Este conto Dramatic explora temas de Justice e é adequado para Adults. Oferece Moral perspectivas. Uma tradição sombria testa os limites da comunidade, do medo e do espírito humano.
No coração da pequena cidade de Millville, a chegada do verão trouxe não apenas calor e flores desabrochando, mas também uma sensação de inquietação que se espalhou pela comunidade. Essa inquietação girava em torno de uma tradição tão antiga e enraizada que poucos questionavam seu propósito ou origem. O evento, simplesmente conhecido como "A Loteria", era realizado todos os anos em 27 de junho, uma ocasião que era tanto celebrada quanto temida pelos moradores da cidade.
Millville era uma comunidade pequena e unida onde todos sabiam dos assuntos uns dos outros. A população da cidade se mantinha estável por gerações, com famílias que viviam lá desde a fundação. As ruas eram ladeadas por casas pitorescas, cada uma com um gramado perfeitamente cuidado, e a praça central era o local de encontro para todos os eventos importantes. A Loteria, no entanto, era o evento mais significativo de todos, reunindo toda a cidade de uma maneira que nada mais conseguia.
A tradição da Loteria havia sido passada de geração em geração e, embora alguns detalhes tenham mudado ao longo do tempo, o cerne do ritual permaneceu o mesmo. Ninguém conseguia lembrar exatamente quando a Loteria havia começado ou por quê, mas geralmente se aceitava que tinha algo a ver com garantir uma boa colheita. Havia referências vagas a práticas antigas, a sacrifícios feitos para apaziguar os deuses, mas essas eram descartadas como contos antigos. O que era certo era que a Loteria havia se tornado um ritual de tanta importância que questioná-la era questionar a própria fundação da sociedade de Millville.
À medida que a manhã de 27 de junho amanhecia, os moradores começaram a se reunir na praça, seus ânimos sombrios apesar do dia claro e ensolarado. Crianças, liberadas mais cedo da escola para a ocasião, corriam pela praça, suas risadas e gritos sendo um contraste marcante com a tensão que pairava no ar. Elas eram muito jovens para compreender plenamente a importância da Loteria, embora percebessem sua relevância pelas conversas baixas de seus pais e pelos olhares nervosos trocados entre os adultos.
Os homens da cidade formavam pequenos grupos, discutindo as últimas notícias—culturas, clima e outros tópicos mundanos—enquanto lançavam olhares ocasionais para o centro da praça, onde a caixa de madeira preta havia sido colocada sobre uma mesa robusta. As mulheres, por outro lado, reuniam-se em grupos mais silenciosos, suas vozes baixas e expressões sérias. Falaram sobre a loteria em tons cuidadosos, suas palavras cautelosas e seus olhos ocasionalmente se voltando para seus filhos, que estavam felizes e alheios ao peso do dia.
A caixa preta, símbolo central da Loteria, era um objeto simples e desprovido de adornos, mas carregava uma aura de ameaça. Era antiga, a madeira desgastada suavemente pelos anos de manuseio, e tinha uma qualidade desbotada, como se tivesse absorvido o medo e a tensão de inúmeras loterias anteriores. A caixa era guardada durante todo o ano em um local seguro—alguns diziam que era mantida na prefeitura, outros acreditavam que estava escondida no escritório da companhia de carvão—mas onde quer que estivesse, seu reaparecimento a cada junho causava um arrepio na espinha de cada adulto em Millville.
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**Preparativos para "A Loteria"**
Os preparativos para a Loteria eram supervisionados pelo Sr. Summers, o jovial e eficiente proprietário do negócio local de carvão. O Sr. Summers era um homem de meia-idade, com um rosto redondo e bem-humorado e uma voz que transmitia autoridade sem precisar ser alta. Apesar de seu comportamento amigável, havia uma solenidade sobre ele nesse dia, uma seriedade que destoava do habitual brilho em seus olhos. Era sua responsabilidade garantir que a loteria fosse conduzida de forma justa e sem incidentes, e ele levava esse dever muito a sério.
O Sr. Summers chegava cedo à praça, acompanhado pelo Sr. Graves, o carteiro da cidade. Os dois trabalhavam em conjunto, montando a mesa e colocando a caixa preta em seu centro. O Sr. Graves era um homem alto e magro, com uma expressão severa, um homem de poucas palavras que abordava seus deveres com o mesmo cuidado meticuloso do Sr. Summers. Juntos, representavam a autoridade da cidade, os guardiões de sua tradição mais sagrada.
"Bom dia, Sr. Summers," disse o Sr. Graves enquanto posicionavam a caixa na mesa.
"Bom dia, Sr. Graves," respondeu o Sr. Summers. "Parece que temos uma boa participação este ano."
O Sr. Graves acenou com a cabeça, olhando para a multidão que começava a se reunir ao redor deles. "Como sempre."
O Sr. Summers abriu a caixa, revelando os papéis dentro dela. Havia um papel para cada família da cidade, cuidadosamente dobrados e colocados na caixa pelo Sr. Summers e pelo Sr. Graves na noite anterior. Em todos, menos em um dos papéis, o papel estava em branco. Mas em um papel, havia um único ponto preto ominoso. Esse papel, o marcado, era a chave para a conclusão sombria da loteria.
À medida que os moradores continuavam a se reunir, o Sr. Summers e o Sr. Graves começavam o processo de misturar os papéis, garantindo que fossem bem embaralhados antes do sorteio começar. A multidão observava em silêncio, seus rostos uma mistura de antecipação e medo. Este era o momento que estabelecia o tom para o resto do dia, o momento em que a loteria realmente começava.
"Tudo bem, pessoal," chamou o Sr. Summers, elevando a voz para se dirigir à multidão. "Vamos começar. Todos conhecem as regras, então vamos ser rápidos e simples."
Houve um murmúrio de concordância na multidão, mas era claro que ninguém estava ansioso para começar. O ar estava denso de tensão, e o bate-papo usual que acompanhava as reuniões na praça estava ausente. A loteria não era um momento para conversas ociosas; era um momento de solenidade, de dever, de adesão a uma tradição que ninguém ousava questionar.
O Sr. Summers acenou para o Sr. Graves, que avançou e começou a chamar os nomes das famílias, uma a uma. À medida que cada nome era chamado, o chefe da família—geralmente o pai ou o filho mais velho—avançava para tirar um papel da caixa. O processo era rápido, quase mecânico, mas carregado de uma intensidade silenciosa que tornava o ar pesado.
"Adams," chamou o Sr. Graves, e um homem alto com cabelos grisalhos avançou. O Sr. Adams tirou seu papel e voltou para sua família, seu rosto impassível, suas mãos firmes.
"Clark," veio o próximo nome, seguido por "Delacroix," "Henderson," "Martin," e assim por diante. Cada homem se aproximava da caixa com uma mistura de resignação e determinação, cada um ciente da possibilidade de que naquele ano, poderia ser sua família a ser escolhida.
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**A Revelação dos Papéis**
A cidade esperava em silêncio enquanto os papéis eram sorteados, cada família prendendo a respiração enquanto segurava seu pequeno pedaço de papel. A tensão na praça aumentava a cada momento que passava, até que finalmente, todos os papéis haviam sido tirados. O Sr. Summers olhou para a multidão, sua expressão indecifrável.
"Tudo bem," disse ele, sua voz quebrando o silêncio. "Vamos abri-los."
Houve uma respiração coletiva enquanto os moradores desdobravam seus papéis, os olhos de cada pessoa vasculhando o temido ponto preto. Para a maioria, houve um suspiro de alívio ao ver apenas o papel branco. Mas uma família permaneceu congelada, seu papel ainda não aberto.
Os Hutchinsons.
Bill Hutchinson, um homem alto de constituição forte, estava com sua esposa Tessie e seus três filhos. A família tinha se mudado para Millville alguns anos atrás e, embora fossem relativamente novos em comparação com algumas das outras famílias, rapidamente se tornaram parte da comunidade. Bill era bem-querido, um trabalhador árduo e um marido e pai devoto. Tessie era conhecida por sua sagacidade e personalidade vibrante, frequentemente vista conversando animadamente com as outras mulheres da cidade.
Mas agora, enquanto os olhares da multidão se voltavam para eles, os Hutchinsons permaneciam em silêncio estupefato. Tessie segurava o papel de mão firme, seus nós dos dedos brancos enquanto o observava, relutante em abri-lo.
"Vamos lá, Tessie," alguém da multidão incentivou, sua voz tingida de impaciência. "Vamos ver o que você tem."
As mãos de Tessie tremiam enquanto ela lentamente desdobrava o papel. Quando viu o ponto preto no centro, sua respiração ficou presa na garganta. Por um momento, ela ficou chocada demais para falar, atônita demais para reagir.
Então, a realidade do que o ponto preto significava a atingiu como um tombo de tijolos. Seus olhos se arregalaram de horror, e ela olhou ao redor para os rostos dos moradores, procurando algum sinal de misericórdia, alguma indicação de que tudo aquilo era um terrível engano.
"Não é justo!" Tessie gritou, sua voz tremendo de choque e medo. "Não é justo! Não era para ser conosco!"
Mas as regras da Loteria eram inflexíveis, e não havia espaço para debate. A multidão começou a murmurar, uma onda de desconforto se espalhando pela praça enquanto os apelos de Tessie preenchiam o ar. A loteria tinha suas regras, e essas regras tinham que ser seguidas, não importando quão cruéis pudessem parecer.
O Sr. Summers e o Sr. Graves trocaram um olhar, seus rostos sombrios. Eles já tinham visto essa reação antes, muitas vezes, e sabiam o que tinha que ser feito.
"Precisamos fazer isso rapidamente," disse o Sr. Summers, sua voz desprovida de emoção. Ele se voltou para a multidão, sua expressão firme. "Todos sabem o que fazer. Vamos terminar logo."
Os moradores sabiam o que se esperava deles. Cada pessoa avançava, pegando uma pedra do monte que havia sido preparado mais cedo no dia. As pedras variavam em tamanho, algumas pequenas o suficiente para caber na palma da mão, outras maiores e mais desajeitadas. Mas todas serviam para o mesmo propósito.
Os Hutchinsons foram levados para o centro da praça, Tessie agora implorando por misericórdia, sua desafiante inicial desmoronando em desespero. Mas a cidade havia se transformado em pedra, seus rostos fixos com uma determinação que destoava do horror do que estavam prestes a fazer.
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**O Desfecho Trágico**
"Não era para ser assim," Tessie soluçou, segurando o braço de seu marido. "Bill, faça alguma coisa!"
Bill Hutchinson, com o rosto pálido, olhou para sua esposa com uma impotência que dilacerava seu coração. Ele sempre fora um homem de ação, alguém que poderia resolver qualquer problema, mas agora estava impotente. A loteria os havia escolhido, e não havia nada que ele pudesse fazer para impedir.
"Desculpe, Tessie," ele sussurrou, sua voz engasgada de emoção. "Sinto muito."
Mas não havia tempo para desculpas, nem para despedidas. Os moradores estavam prontos, suas pedras na mão, seus olhos frios e impassíveis. Assim sempre as coisas tinham sido feitas, assim continuariam a ser feitas. A loteria tinha suas regras, e essas regras tinham que ser seguidas.
Quando a primeira pedra foi lançada, atingindo Tessie no ombro, ela gritou, mas nada podia parar o que havia começado. Os moradores se moveram como um só, suas mãos se movendo em uníssono enquanto arremessavam suas pedras contra Tessie. Seus gritos ecoaram pela praça, misturando-se com os golpes das pedras enquanto atingiam seu corpo.
A loteria havia escolhido, e a cidade havia cumprido.
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**O Pós-Loteria**
Quando tudo acabou, houve um silêncio na praça, um silêncio pesado e opressor que parecia pairar no ar como um véu. Os moradores permaneciam, seus rostos vazios, suas mãos ainda segurando as pedras que realizaram o terrível ato. Por um momento, ninguém se moveu, como se a gravidade do que havia acontecido ainda não tivesse se instalado.
Então, lentamente, a multidão começou a se dispersar. Os moradores deixaram suas pedras caírem, seus movimentos mecânicos, enquanto se afastavam da praça, retornando para suas casas e suas vidas. A loteria havia terminado por mais um ano, e a vida em Millville voltaria ao normal, até a próxima vez que a caixa preta fosse trazida e os papéis fossem preparados novamente.
Mas, por enquanto, a praça estava vazia, exceto pela caixa de madeira preta, ainda sentada na mesa, e pelas pedras espalhadas pelo chão. A loteria havia reivindicado sua vítima, como sempre fazia, como sempre faria.
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A cidade de Millville, com seu segredo sombrio escondido por trás de uma fachada de normalidade, continuaria seguindo em frente, inalterada, incontestada, suas tradições sustentadas pelo peso dos anos e pelo poder do medo. Os moradores voltariam às suas rotinas diárias, os eventos do dia relegados para o fundo de suas mentes, suprimidos por um silêncio coletivo que garantia que a loteria permanecesse não dita até o ano seguinte.
As crianças cresceriam sabendo que algum dia, elas também estariam na praça, seus destinos ligados ao conteúdo da caixa preta. Elas aprenderiam a não questionar, a não resistir, mas a aceitar a loteria como uma parte inevitável da vida em Millville. E assim, o ciclo continuaria, cada ano adicionando mais uma camada de medo à tradição que os unia a todos.
Pois em Millville, o passado não era apenas história—era o presente, uma força viva e pulsante que moldava suas vidas e ditava suas ações. A loteria era mais do que apenas um ritual; era um lembrete do poder da tradição, do perigo da obediência cega e da escuridão que podia se esconder sob a superfície das cidades mais ordinárias.
E enquanto o sol se punha sobre Millville naquele dia, lançando longas sombras sobre a praça vazia, a própria cidade parecia suspirar, uma respiração coletiva liberada após a tensão do dia. A loteria havia terminado, e por mais um ano, a cidade estaria em paz. Mas a memória das pedras, dos gritos e do ponto preto persistiria, um fantasma que assombrava as bordas de sua consciência, nunca desaparecendo completamente.