Tempo de leitura: 12 min

Sobre a História: O Sul" de Jorge Luis Borges é um Realistic Fiction de argentina ambientado no 20th-century. Este conto Descriptive explora temas de Loss e é adequado para Adults. Oferece Cultural perspectivas. Uma jornada pelo sul da Argentina revela verdades e confrontos inesperados.
A jornada começou no outono de 1939. Juan Dahlmann, neto de Johannes Dahlmann, um imigrante alemão que se estabeleceu na Argentina durante o século XIX, finalmente conseguiu realizar seu sonho de passar um tempo na propriedade rural de sua família no sul. Durante anos, Juan trabalhou incansavelmente como bibliotecário em Buenos Aires, mas sempre cultivou uma imagem idealizada de sua casa ancestral, imaginando-a como um símbolo tanto de sua herança quanto de sua identidade pessoal.
Sua história, como tantas outras, começa com um evento inesperado—um livro. Dahlmann havia acabado de adquirir uma edição rara de *As Mil e Uma Noites* e, em sua ansiedade para lê-lo, negligenciou aonde estava indo. Ele bateu a cabeça contra uma porta semiaberta e sofreu uma lesão que, a princípio, parecia trivial, mas rapidamente se tornou grave, levando a uma doença prolongada e com risco de vida.
A doença de Dahlmann foi um golpe para seu espírito. Durante dias, ele permaneceu entre a vida e a morte, perdido em delírios, enquanto os médicos tratavam uma infecção que se instalou após a lesão na cabeça. Foi um período de sonhos febris, uma névoa de noites intermináveis e dolorosos momentos de consciência. Às vezes, Dahlmann sentia-se escorregar para as profundezas do tempo, onde seus ancestrais pareciam chamá-lo. Somente meses depois Dahlmann se recuperou. Seu corpo estava enfraquecido, mas sua mente ainda estava consumida por um único desejo: visitar o rancho de sua família no sul. Ele acreditava que o ar fresco do campo, os vastos espaços abertos e a tranquilidade da vida rural o ajudariam a recuperar suas forças e restaurar sua alma. Finalmente, no final do verão, Dahlmann estava bem o suficiente para fazer a viagem. Ele embarcou no trem que o levaria para o sul, levando consigo apenas alguns itens essenciais e sua preciosa cópia de *As Mil e Uma Noites*. O sul não era mais apenas um sonho—era agora um objetivo tangível, e Dahlmann estava cheio de uma mistura de excitação e apreensão enquanto o trem lentamente deixava a cidade e se dirigia para as planícies abertas. À medida que a cidade recuava na distância, Dahlmann sentiu o peso de sua doença se levantar dos ombros. A paisagem fora da janela do trem—campos de grama selvagem se estendendo infinitamente em direção ao horizonte—era um bálsamo para sua alma cansada. Ele estava viajando em direção às suas origens, para a terra onde seus ancestrais construíram suas vidas. Pela primeira vez em meses, Dahlmann sentiu uma sensação de paz. A viagem de trem foi longa e sem eventos marcantes. Dahlmann passou grande parte do tempo olhando pela janela, observando o campo mudar à medida que o trem avançava mais para o sul. No início, a paisagem era familiar—campos verdes, pequenas cidades e árvores dispersas—mas, à medida que o trem adentrava mais profundamente no interior, a cena se tornava mais desolada. A vegetação afinava, as cidades diminuíam de tamanho e o horizonte parecia se estender para sempre. Dahlmann pensava em seus ancestrais enquanto o trem passava pela vasta extensão das Pampas. Lembrou-se das histórias que seu avô contava sobre o velho rancho no sul, sobre o trabalho árduo e o isolamento da vida na fronteira. Naquela época, o sul era um lugar selvagem e perigoso, uma terra de gaúchos e foras-da-lei, onde os homens viviam de sua astúcia e força. Mas isso foi há muito tempo. Agora, o sul era um lugar de paz, um refúgio silencioso afastado do agito da cidade. Dahlmann imaginava o rancho como um santuário, um local onde poderia descansar e se recuperar, longe do barulho e do caos de Buenos Aires. À medida que o sol começava a se pôr, o trem fez uma parada em uma pequena estação. Dahlmann desceu na plataforma para esticar as pernas. O ar estava mais fresco agora, e o céu tingia-se com os tons de rosa e laranja do pôr do sol. A estação estava silenciosa, com apenas alguns passageiros circulando. Dahlmann sentiu uma estranha sensação de antecipação, como se algo importante estivesse prestes a acontecer, embora ele não conseguisse dizer o quê. Quando o trem retomou a viagem, Dahlmann retornou ao seu assento e abriu seu livro. Ele havia carregado *As Mil e Uma Noites* consigo desde sua doença, mas ainda não tinha encontrado tempo para lê-lo. Agora, enquanto o trem balançava suavemente sobre os trilhos, ele se perdeu nas histórias de reis antigos e terras mágicas. Era quase meia-noite quando o trem finalmente chegou ao destino de Dahlmann. Ele desceu do trem e olhou ao redor. A estação era pequena e escura, com apenas algumas luzes fracas lançando longas sombras pela plataforma. Ninguém estava esperando por ele, mas isso não foi surpresa—Dahlmann não havia avisado a ninguém de sua vinda. Ele pegou sua bolsa e começou a caminhar em direção à saída. Ao sair, Dahlmann foi acometido pela quietude da noite. O ar estava fresco e nítido, e as estrelas brilhavam intensamente acima dele. O campo se estendia diante dele, escuro e silencioso, e, por um momento, Dahlmann sentiu uma sensação de solidão profunda. Dahlmann caminhou por horas aparentes pela estrada empoeirada que ligava a estação ao rancho. A noite estava tranquila, exceto pelo ocasional farfalhar de folhas ou pelo distante chamado de uma coruja. A estrada parecia interminável, e Dahlmann começou a sentir o cansaço da viagem pesar sobre ele. Justo quando pensava que poderia desmaiar de exaustão, Dahlmann viu um brilho tênue de luzes ao longe. Conforme se aproximava, percebeu que era uma pequena taverna, aninhada à beira da estrada. Era um edifício simples, com paredes caiadas de branco e um telhado de palha, mas era uma visão bem-vinda. Dahlmann entrou, agradecido pelo calor e pela luz. A taverna estava quase vazia, exceto por alguns homens sentados em uma mesa no canto. O ar estava denso com o cheiro de tabaco e fumaça de madeira, e podia-se ouvir o som suave de um violão ao fundo. Dahlmann pediu uma bebida e sentou-se em uma mesa próxima à janela. Enquanto tomava seu drinque, Dahlmann sentiu o cansaço da jornada começar a derreter. O calor da lareira e o murmúrio tranquilo das vozes na taverna o acalmavam, e pela primeira vez em dias, ele se sentiu verdadeiramente relaxado. Mas sua paz foi curta. Pelo canto do olho, Dahlmann notou que um dos homens na mesa o observava. O homem era alto e de ombros largos, com um rosto enrugado e um bigode preto espesso. Havia algo na maneira como ele olhava para Dahlmann que o deixava inquieto. O homem levantou-se e caminhou até a mesa de Dahlmann. Parou na frente dele, olhando para baixo com um sorriso torto. “O que traz um garoto da cidade aqui?” o homem perguntou, com a voz áspera e zombeteira. Dahlmann tentou ignorá-lo, mas o homem insistiu. “Você não pertence a este lugar,” disse, sua voz mais alta agora. “Este não é um lugar para um homem da cidade frouxo.” Os outros homens na taverna se voltaram para observar, e Dahlmann pôde sentir seus olhares sobre ele. Seu coração acelerava, mas ele fez o possível para permanecer calmo. Sabia que não havia sentido em discutir com o homem. Sem dizer uma palavra, Dahlmann levantou-se e caminhou em direção à porta. Mas antes que pudesse sair, o homem o agarrou pelo braço. “Não terminei com você,” disse, apertando mais firme. Dahlmann virou-se para encará-lo, seus olhos frios e determinados. “Deixe-me ir,” disse calmamente. Por um momento, o homem hesitou, mas então soltou o braço e recuou. Dahlmann saiu da taverna, com o coração pulsando no peito. Dahlmann caminhou pela estrada, tentando se livrar do encontro na taverna. Ainda podia sentir os olhos do homem sobre ele, e a lembrança da voz zombeteira ecoava em seus ouvidos. Mas ao continuar caminhando, a noite ficava mais silenciosa, e logo a taverna ficou muito para trás. Ele estava quase chegando ao rancho quando ouviu passos atrás de si. Dahlmann se virou para ver o homem da taverna, junto com mais dois, caminhando em sua direção. Eles riam e conversavam alto, e suas vozes se propagavam pelo ar frio da noite. O coração de Dahlmann afundou. Ele sabia o que estava por vir. Os homens alcançaram-no, e aquele que o havia provocado na taverna avançou. “Eu te disse que não terminávamos,” disse, com a voz baixa e ameaçadora. Dahlmann não respondeu. Sabia que não havia sentido em discutir com aqueles homens. Eles já tinham tomado suas decisões. Sem aviso, o homem puxou uma faca do cinto e a jogou aos pés de Dahlmann. “Vamos resolver isso como homens,” disse, com um sorriso cruel nos lábios. Dahlmann olhou para a faca por um momento, sua mente correndo. Ele nunca havia participado de uma luta antes, muito menos de um duelo com facas. Mas sabia que não havia saída. Se recusasse, os homens o zombariam, e ele nunca superaria isso. Com o coração pesado, Dahlmann se abaixou e pegou a faca. O peso da lâmina em sua mão parecia estranho e antinatural. Ele olhou para o homem à sua frente, com o rosto torcido em um sorriso torto, e soube que estava além de suas forças. Os dois homens se posicionaram frente a frente, os olhos se fixando um no outro. Por um momento, o mundo pareceu parar. A noite estava silenciosa, e o único som era o leve farfalhar do vento através da grama. Então, sem aviso, o homem avançou contra Dahlmann. A lâmina brilhou à luz da lua enquanto ele o atacava, mas Dahlmann conseguiu desviar do golpe. Seu coração disparava enquanto tentava manter distância, mas o homem era implacável, atacando repetidamente com força brutal. Dahlmann podia sentir o pânico crescendo em seu peito. Ele não tinha experiência com facas, nenhuma habilidade de luta, e sabia que era apenas uma questão de tempo antes que o homem desferisse um golpe fatal. Mas então, algo estranho aconteceu. À medida que a luta se prolongava, Dahlmann sentiu uma mudança sobrevir a ele. O medo que o havia dominado no início do duelo começou a desaparecer, substituído por uma calma estranha. Ele não pensava mais em vencer ou perder, em vida ou morte. Simplesmente se movia, reagindo aos ataques do homem sem pensar ou hesitar. Por horas que pareceram intermináveis, os dois homens se circularam, suas facas brilhando na escuridão. Então, em um movimento rápido, Dahlmann atacou. A lâmina penetrou no lado do homem, e ele recuou, os olhos arregalados de choque. Os companheiros do homem correram para seu lado, mas já era tarde. Ele desabou no chão, seu sangue manchando a grama abaixo dele. Dahlmann permaneceu ali, com o peito ofegante, a faca ainda firmemente em sua mão. Ele havia vencido, mas não sentia sensação de vitória, nem sentimento de triunfo. Apenas um vazio profundo e oco. Sem dizer uma palavra, Dahlmann virou-se e caminhou, deixando os homens para trás. Dahlmann chegou ao rancho exatamente quando o sol começava a nascer. O céu era de um rosa pálido, e os primeiros raios de luz rompiam o horizonte. O ar estava fresco e imóvel, e o mundo parecia estar prendendo a respiração. Ao pisar na varanda da velha casa, Dahlmann sentiu uma onda de exaustão invadir-o. Seu corpo doía da longa jornada, e sua mente ainda estava confusa com os eventos da noite. Ele afundou nos degraus e enterrou o rosto nas mãos. Por muito tempo, Dahlmann permaneceu ali, perdido em pensamentos. Os acontecimentos da noite se repetiam incessantemente em sua mente, e ele se pegava questionando tudo o que sempre acreditou sobre si mesmo, sobre o mundo. Ele fora para o sul em busca de paz, buscando uma conexão com seu passado, mas tudo o que encontrou foi violência e morte. O sul não era o refúgio idílico que imaginava—era um lugar de perigo, um lugar onde os homens ainda viviam e morriam pela faca. Dahlmann sempre se considerou um homem civilizado, um homem da cidade, mas agora não tinha tanta certeza. O duelo havia despertado algo nele, algo sombrio e primitivo. Ele havia matado um homem, e embora tenha sido em legítima defesa, sabia que sua vida nunca mais seria a mesma. À medida que o sol subia mais alto no céu, Dahlmann levantou-se e entrou na casa. A casa estava silenciosa e vazia, exatamente como a deixara. Ele vagou pelos cômodos, tocando os móveis, as paredes, as janelas, como se tentasse absorver a história do lugar. Finalmente, ele parou em frente a uma grande janela que dava para os campos. A grama estava alta e selvagem, balançando suavemente na brisa. À distância, podia ver a silhueta tênue das montanhas, seus picos envoltos em névoa. Dahlmann permaneceu ali por muito tempo, olhando para a terra que uma vez pertenceu a seus ancestrais. Pensou em seu avô, nos longos dias de trabalho na terra, nas dificuldades e nas alegrias da vida no sul. E ele percebeu que não era tão diferente dos homens que vieram antes dele. Ele era parte desta terra, parte de sua história. O sul o havia reivindicado, assim como havia reivindicado seus ancestrais. Com um suspiro profundo, Dahlmann afastou-se da janela e caminhou em direção à porta. O sul não era mais um sonho—era sua realidade. E ele teria que viver com isso.A Queda e a Recuperação
O Trem para o Sul
A Taverna no Sul
O Duelo
O Retorno para Casa